Especializa – Intervenção Comportamental ABA E TEA

Birra infantil: Como lidar com esse comportamento das crianças?

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA) é uma ciência que investiga, de forma sistemática, as relações entre comportamento e ambiente, com o objetivo de promover mudanças comportamentais socialmente significativas. Fundamentada nos princípios do behaviorismo radical propostos por B. F. Skinner, a ABA compreende que o comportamento — inclusive aquele considerado problema — é aprendido e mantido por contingências ambientais (Skinner, 1953). Dessa forma, comportamentos interferentes não são vistos como falhas internas do indivíduo, mas como respostas funcionalmente relacionadas ao ambiente.

🔹 O que são comportamentos interferentes ou disruptivos?

Comportamentos interferentes (ou disruptivos) são aqueles que prejudicam o acesso do indivíduo a aprendizagens, interações sociais e autonomia, além de impactarem negativamente familiares e cuidadores. Exemplos comuns incluem agressões, gritos, fuga de demandas, destruição de objetos, dentre outros. A literatura em ABA demonstra que esses comportamentos são mantidos por funções específicas, como atenção social, escape de tarefas, acesso a reforçadores tangíveis ou estimulação sensorial (Iwata et al., 1994).

🔹 Princípio Central da ABA:

Todo comportamento tem uma função.
Intervir sem compreender essa função aumenta o risco de estratégias ineficazes ou até prejudiciais.

🔹Avaliação Funcional do Comportamento:

A avaliação funcional é o processo pelo qual o analista do comportamento identifica por que um comportamento ocorre. Conforme descrito por Cooper, Heron e Heward (2020), essa avaliação analisa a relação entre antecedentes (A), resposta (B) e consequências (C), permitindo intervenções individualizadas e baseadas em evidências. Estudos clássicos de Iwata et al. (1994) demonstraram que tratamentos guiados pela função do comportamento são significativamente mais eficazes do que intervenções genéricas ou punitivas.

🔹Avaliação Funcional:

Não é o comportamento em si que define a intervenção, mas a função que ele exerce para o indivíduo.

🔹 Exemplos Clínicos (Análise Funcional e Intervenção)

🧩 Exemplo Clínico 1 — “Birras” intensas durante atividades acadêmicas

Descrição do comportamento:
Uma criança de 6 anos apresenta choro intenso, gritos e se joga no chão sempre que é solicitada a realizar atividades de mesa.

Análise funcional (hipotética):

  • Antecedente: Apresentação de demanda acadêmica estruturada
  • Resposta: choro intenso, gritos e jogar-se no chão
  • Consequência: Retirada da atividade e atenção do adulto
  • Função principal: Escape de demanda (possivelmente combinado com atenção)
🧩 Exemplo Clínico 2 — Agressão para obter brinquedos

Descrição do comportamento:
Uma criança de 4 anos agride colegas (empurrões e tapas) quando deseja um brinquedo específico.

Análise funcional (hipotética):

  • Antecedente: Outro colega utilizando o brinquedo
  • Resposta: empurrões e tapas
  • Consequência: Acesso imediato ao brinquedo
  • Função principal: Acesso a reforçador tangível

     

🔹Intervenção Baseada em Evidências:

A ABA prioriza ensinar habilidades alternativas, e não apenas reduzir comportamentos problema.

🔹 ABA, Evidência Científica e Qualidade de Vida

A literatura internacional e nacional demonstra que intervenções baseadas em ABA reduzem comportamentos interferentes de forma ética, eficaz e duradoura. Autores como Cooper, Heron & Heward (2020), Hanley et al. (2003) e Tiger, Hanley & Bruzek (2008) reforçam que o foco da intervenção deve estar no ensino de repertórios funcionais, promovendo autonomia e inclusão. No Brasil, pesquisadores como João Claudio Todorov, Andresa de Souza, Ana Carolina Sella, dentre tantos outros, contribuíram e ainda contribuem significativamente para a aplicação da ABA em contextos clínicos e educacionais, fortalecendo práticas alinhadas à ciência do comportamento e visando maior qualidade de vida às pessoas.

🔹Referências:

Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.). Pearson.

Hanley, G. P., Iwata, B. A., & McCord, B. E. (2003). Functional analysis of problem behavior: A review. Journal of Applied Behavior Analysis, 36(2), 147–185.

Iwata, B. A., Dorsey, M. F., Slifer, K. J., Bauman, K. E., & Richman, G. S. (1994). Toward a functional analysis of self-injurious behavior. Journal of Applied Behavior Analysis, 27(2), 197–209.

Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. Macmillan.

Tiger, J. H., Hanley, G. P., & Bruzek, J. (2008). Functional communication training: A review and practical guide. Behavior Analysis in Practice, 1(1), 16–23.